Escrito e ilustrado por Mauricio Negro
> Edições SM, 2014

> Altamente Recomendável/Categoria Reconto/FNLIJ, 2015

Com base nas lembranças do avô, especialmente de suas histórias e expressões de entonação ítalo-paulistana, Mauricio Negro recria antigas fábulas populares italianas e reconta anedotas, cujo forte das protagonistas não são, nem de longe, as virtudes morais. Aparentemente cândidas, ingênuas ou simpáticas, no fundo escondem um tanto de mesquinharia, interesse ou maldade. Divertidas histórias ilustradas, recontadas com muito sotaque e gesticulação.

A edição, com capa brochura, orelhas, miolo em papel pólen e encadernação japonesa, confere sofisticação à aparente rusticidade narrativa textual e visual. O autor mistura ingredientes: sua memória afetiva do nonno Nenê, a obra poética futurista, satírica, pré-modernista, antropófaga, dadá ou cubista do poeta barbeiro e jornalista Juó Bananère (ou melhor, Alexandre Marcondes Machado), a verve afro-italiana de Adoniran Barbosa e, finalmente, as antigas anedotas e narrativas populares italianas (recolhidas por Giuseppe Pitrè, Antonio de Nino, entre outros). 


“Com mais de vinte anos de prática, o autor e artista gráfico Mauricio Negro tem pleno domínio da linguagem, que se desdobra entre texto e imagem, levando-nos ao universo maravilhoso da fábula. Tendo em vista que a tarefa peculiar do ilustrador é dar fisionomia às coisas pensadas, o pendor para o sentido figurado possibilitou ao autor tirar proveito de “expressões” compartilhadas com os mais diversos povos: sua obra como autor-ilustrador reúne histórias contadas e recontadas, lendas e mitos de origem provenientes da coleta de tradições populares, como as indígenas. Além do apreço pelo pensamento originário em sua produção literária infantojuvenil, grafismos nativos são incorporados às suas ilustrações.
Como fabulista, Mauricio não só maneja histórias, mas cria versões, estabelece múltiplas conexões entre ideias, processos, coisas. Atua a intertextualidade num mundo de transformações e transfigurações. Com Por fora bela viola não é diferente, só que, dessa vez, o ponto de partida é a tradição muito próxima dele mesmo: a herança ítalo-paulistana. O encantamento aqui é pela própria memória, pelas histórias, palavras e expressões vindas do nonno, o avô materno. Frequentemente, nos contos infantis, os avós dão às crianças a dimensão do tempo, da distância, dos ascendentes. Já o avô do autor, conhecido como Seu Nenê, contraria essas expectativas, uma vez que, pelas mãos do neto, é associado a uma figura divertida, jovial. No entanto, nesse resgate do passado, Negro vai além, expande sentidos, agregando às palavras do avô outras falas de entonação ítalo-paulistana, associada às tradições do imigrante italiano em processo de aculturação e que marcou profundamente a história de São Paulo. Não só revive o humor insólito que marca a anedota italiana, como recorre a antigos contos populares da Itália e, assim como acontece no mundo das fábulas, os reconta aclimatando-os aos dias de hoje. Para tanto, evoca provérbios, usos e costumes e, sobretudo, pontua texto e imagens com italianismos e gestos típicos. Longe da aspiração realista, o autor busca um permanente estado de admiração, aquela capacidade de maravilhar-se com o mundo, com o frescor da visão de uma criança. Tecidas na teia do vivido, as fábulas e anedotas reunidas em Por fora bela viola caracterizam-se pela espontaneidade com que são contadas, num discurso tão próximo da oralidade que é impossível não se deixar encantar.”

Ana Maria Belluzzo

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